• Leonardo Amaro

Os Dois Mundos de The Darkness

The Darkness foi lançado em 2007 pela 2K Games e foi produzido pela Starbreeze Studios. O jogo traz o personagem principal dos quadrinhos The Darkness, Jack Estacado, numa releitura da criação da editora Top Cow Comics. Num mundo mais “realista” e violento do que o apresentado nos quadrinhos, Jack, o mafioso de New York City, precisa enfrentar forças humanas e sobrenaturais se quiser sobreviver.


O jogo nos traz Estacado no dia que em que completa 21 anos. Este foi o dia em que um simples serviço de coleta de dinheiro acaba em problemas, com Jack e seus comparsas tendo que fugir de uma perseguição policial. E também foi o dia em que a entidade chamada The Darkness despertou dentro do jovem mafioso.

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Descobre-se que ele tinha caído numa armadilha perpetrada por seu tio adotivo e chefe da Família da Máfia, Paulie Franchetti, e pelo capitão da polícia Eddie Shrote, pois ambos estavam “de saco cheio” (na falta de um termo melhor) de Jack, que cada vez mais ganhava respeito entre seus iguais e agia quase que independentemente – tornando tanto a vida de Paulie quanto a de Shrote um tanto difícil.

Antes de tudo, o enredo do jogo é um tanto diferente dos quadrinhos. Para tornar a história mais envolvente e “crível”, a Starbreeze Studios decidiu mudar nomes e características dos personagens: Paulie Franchetti nos quadrinhos se chama Frank Franchetti (em italiano, o nome se pronuncia “fran-Ke-ti”); ao utilizar os poderes da Escuridão, Jack Estacado não se veste com uma armadura “heroica”, ficando apenas com os olhos iluminados; Jenny Romano, a colega de orfanato de Jack e sua namorada, tem uma aparência mais agressiva e menos “bonequinha” em relação à obra original; Butcher Joyce, amigo de Jack e executor associado à Máfia, é bem mais realista e se parece menos com um “Papai Noel” ruivo; a entidade Darkness é muito mais pertubadora, sombria e profunda, além de oferecer um terror psicológico muito…tenebroso (faltam-me palavras).


Arte conceitual do jogo



Uma capa dos quadrinhos


Esse direcionamento de se afastar do conceito “superfantástico” dos quadrinhos foi uma escolha bem acertada, pois The Darkness é um produto dos quadrinhos da década de 1990, época em que essa indústria estava tendo sérios problemas com relação à qualidade dos roteiros, que tinham pouca profundidade.

A mecânica do jogo é a de um First Person Shooter (FPS) com uma jogabilidade mediana, pois os controles são um tanto diferente dos FPS atuais por ser do início da geração PS3/Xbox 360. O grande diferencial de The Darkness são os poderes das sombras. Quando a entidade desperta em Jack, ele ganha poderes como ver no escuro, tentáculos vivos e invocação de darklings, pequenos demônios criados com o poder da entidade Darkness. Outras capacidades vão sendo despertadas com o passar da ação. Lembre-se que os poderes vão enfraquecendo em ambientes iluminados, por isso o jogador pode destruir fontes de luz para que possa utilizá-los e recarregá-los.

The Darkness tem as melhores telas de carregamento (loading screens): enquanto esperamos o próximo cenário, vemos Jack filosofar sobre sua vida, comentar sobre pessoas que conheceu ou opiniar sobre os acontecimentos que acabaram de ocorrer. É um grande diferencial, pois não há nada mais irritante num jogo do que as telas de carregamento estáticas.

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Um dos principais problemas é a IA (Inteligência Artificial) dos personagens, principalmente dos demônios que o jogador pode conjurar para ajudá-lo. Raramente estas criaturas conseguem ir atrás do inimigo, ficando presos em partes do cenário ou simplesmente não atacam.

Uma das melhores fases do jogo é quando vamos para Otherworld, um inferno em que soldados mortos na Primeira Guerra Mundial ainda lutam entre si e é dominado pela entidade The Darkness, que reside num enorme castelo. E este vai ser o assunto principal deste post, mais abaixo (já aviso que terá SPOILERS).

A sequência de The Darkness foi lançada no início de 2012 e foi desenvolvida por outra produtora, a Digital Extreme Games, por isso a arte gráfica é bem diferente, assim como a jogabilidade. Teremos análise sobre este jogo futuramente.

[SPOILERS ABAIXO] 

OS DOIS MUNDOS

The Darkness nos traz uma aventura dividida em dois mundos: o mundo físico (New York) e o mundo psicológico (Otherworld) de Jack Estacado. Ele não é um herói, mas sua jornada aqui se assemelha à Jornada do Herói de Joseph Campbell. Diria que a aventura de Jack seria uma “jornada do herói às avessas”, pois não pretende transformar o mundo à sua volta buscando o bem ou trazer a ordem, mas sendo um anti-herói, ele quer o seu próprio bem, sua própria liberdade, preservar sua própria vida. Um objetivo um tanto egoísta, mas necessário.

Quem é o protagonista? Um criminoso que comete assassinatos sob ordens da Máfia. Ele vive no caótico submundo da cidade de New York. Sua vida está sempre por um fio, embora Jack se engane pensando que está sob constante proteção da Família mafiosa a que pertence, uma falsa segurança que o leva a cometer mais crimes. Esta falsa segurança é quebrada quando seu “tio” e chefe Paulie Franchetti decide matá-lo.

Quem não já ouviu falar da seguinte frase: “o mundo exterior nada mais é do que o reflexo do mundo interior”? Ou seja, a vida do dia-a-dia é apenas o reflexo da vida psicológica. As repetições, os erros constantes, as nossas ações são consequência do ocorre no nosso mundo interior.

Os dois mundos, o físico e o psicológico, se encontram quando Paulie Franchetti mata Jenny Romano. A morte dela só foi possível porque a entidade The Darkness prendeu o puppet (Jack), deixando-o ver sua morte para que ele buscasse vingança e seu ódio contra os responsáveis aumentasse, pois a Escuridão se alimenta deste sentimento inferior. Isto tornaria Estacado definitivamente um fantoche nas mãos da Escuridão como seus ancestrais o foram.

Com a morte do amor da vida de Jack, Paulie queria que ele caísse numa armadilha. Porém, este foi o momento de transformação do protagonista, foi o momento em que ele se rebelou contra os ditames das duas forças (Máfia e Darkness) e preferiu se suicidar a cometer uma ação previsível e negativa. Esta rebelião interior o fez descobrir seu mundo interior, descendo para o Otherworld, seu próprio inferno interno.

Quando Jack Estacado morre e desperta no Otherworld (mundo interno psicológico), vemos o porquê de sua vida ser tão violenta e brutal. O Otherworld é uma versão do inferno, em que vemos uma terra devastada pela Primeira Guerra Mundial com explosões, trincheiras, soldados alemães e soldados aliados lutando entre si. Ao longe vemos uma enorme muralha que cerca o castelo da entidade Darkness, que governa a região. Este inferno nada mais é do que o mundo psicológico de Estacado e a Escuridão domina a sua vida.

Ao despertar pela primeira vez no Otherworld, Jack vê um soldado nazista executando três soldados aliados. Não pude deixar de comparar os soldados alemães aos Pecados, fatores negativos, demônios ou agregados psicológicos – não importa o nome, são nossas partes negativas. Os soldados aliados – que ajudam Jack durante sua passagem no Otherworld – seriam as Virtudes, fatores positivos, anjos ou essências anímicas dentro do mundo psicológico. Neste caso, um soldado alemão nazista se sobrepõe aos três soldados: o caos sobrepuja a ordem na mente de Jack.


Otherworld


Decidido a destruir a Escuridão, a não servir aos seus sentimentos inferiores e não se tornar um fantoche da entidade que reina em seu mundo psicológico, o jovem Estacado encontra a alma do seu ancestral, Anthony Estacado, seu tataravô e o primeiro da linhagem da família a ser possuído pela Escuridão durante a Primeira Guerra Mundial (ele se permitiu ser possuído para sobreviver durante um ataque do exército inimigo).

Anthony é a representação do primeiro pecador, aquele que se permitiu cair em tentação e perder a pureza em troca de seguir seu desejo de poder. A única maneira de se purificar e lutar contra a entidade é encará-la de frente e negar a tentação, ou seja, negar os poderes da The Darkness. O antigo Estacado também pode ser visto como o Mentor espiritual de Jack.

A única maneira de Jack entrar no castelo da entidade, centro do Otherworld, é encontrar o Grande Canhão para dispará-lo contra os portões do castelo. Qual a simbologia deste Canhão? Eu diria que é a Vontade Superior. A única maneira de rebelarmos contra nós mesmos, contra nossos antigos desejos e ambições, é através de uma vontade sublime que ultrapassa qualquer coisa em nível de importância.

O disparo do canhão abala todo o Otherworld: o “Grande Sim”, a certeza máxima do anelo de mudança revolve todo o mundo psicológico. Por isso, mudar é tão difícil porque velhas certezas são abaladas e velhos conceitos não parecem mais corresponder à verdade.

Ao entrar no castelo, Jack desce mais ainda nos mundos inferiores da sua mente. Ele vê quatro cadeiras com cadáveres nelas. E cada cadeira representa um poder que a The Darkness conferiu ao protagonista. Os cadáveres representam as vítimas de de Jack, mortos pelos poderes da The Darkness. Quando ele retira cada um dos cadáveres das cadeiras (exceto um) e senta no lugar deles para devolver os poderes da entidade, a melhor significação seria o arrependimento (pois ele se põe no lugar do morto) e a negação ao mal e aos seus poderes sombrios. É um basta à Escuridão que é sua vida. É o “não” que seu ancestral devia ter dito à Darkness: confrontar a tentação e negá-la.

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Furiosa, a entidade enfrenta Jack. Negando a violência, Jack luta através da passividade. Não podendo lidar com isso, The Darkness é absorvido por Estacado: é a simbologia da célebre frase escrita em grego no antigo Templo de Delfos: gnothi seauton ou “Conhece-te a ti próprio”, o autoconhecimento, a compreensão interior. Através da compreensão da fonte de todo o mal, o protagonista a vence. A Razão Superior vence a Emoção Inferior.

Mas fica o aviso: cada morte causada por Jack o aproxima mais do mal. Embora vencida, The Darkness ainda existe e espera para tentá-lo novamente.

De volta ao mundo físico, assim como Jack invade o território da entidade e a vence, assim também ele invade o farol e vence Paulie Franchetti.

Porém, no derradeiro final, a entidade avisa que se Jack matar Paulie, ele voltará a ser um fantoche nas mãos dela. Obviamente, Jack finalmente se vinga pela morte de Jenny Romano. Algo acontece, um terror caótico, um abalo mental. Então, ele desperta no colo da falecida Jenny, a única inocência em sua vida, a luz na escuridão, a essência da alma, a chispa divina que perdura ante todas as sombras.

Deu-se a entender que Jack não foi subjugado pela entidade pelo assassinato de Paulie Franchetti. Há uma frase que diz: “Uma lei maior lava uma lei menor”. A “lei menor” seria: a cada morte, mais Jack seria dominado pela Escuridão. A “lei maior”, que lava ou purifica a “lei menor”, seria a morte do mal maior no mundo, a morte de Paulie. Jack está livre, venceu o mal e recebeu seu prêmio: ver novamente a sua luz interior, sua Jenny Romano.

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