• Leonardo Amaro

As Forças Militares Privadas nos Games e no Mundo

Vendo alguns jogos como Prototype 1 e 2, Army of Two e Deus Ex: Human Revolution percebi o uso das PMCs (Private Military Corps ou “Corporações Militares Privadas”) no enredo, como a Blackwatch, a SSC e a Belltower, respectivamente. Mas o que são as PMCs? Elas existem de verdade?


Nos jogos que citei acima,  as PMCs são inescrupulosas, maquiavélicas e cometem atos muitas vezes ilegais. Em Prototype, o jogador controla Alex Mercer, um poderoso portador do vírus Blacklight, e luta contra os laboratórios Gentek e contra a própria Blackwatch. A Blackwatch é na verdade uma corporação militar oficial, que realiza operações secretas para conter armas biológicas e alastramento de vírus e bactérias utilizando todos os meios possíveis. A corporação tem poder sobre as forças militares comuns e sobre a força policial de onde estiver e, com todo este poder, ela acaba cometendo sérios crimes contra a população. Apesar de não ser realmente uma PMC, ela tem clara inspiração na Blackwater (que veremos mais abaixo) e possui recursos financeiro e tecnológico que hoje só as PMCs possuem.


Junto com a Gentek, a corporação foi responsável pela vazamento do vírus Blacklight, que infectou a população de Manhattan (distrito da cidade estadunidense de New York). Ao mesmo tempo, a Blackwatch captura civis para realizar testes com o objetivo de criar supersoldados com o vírus modificado e também para servir de alvo nos testes com as criaturas engendradas nos laboratórios.


Em Army of Two, controlamos um dos dois mercenários, Elliot Salem e Tyson Rios, a dupla dinâmica que trabalha para a SSC (Security and Strategy Corporation), prestadora de serviços de apoio militar e contraterrorismo para o governo estadunidense. Após passarem por várias épocas (1993 a 2009) e muita ação, Salem e Rios descobrem que [SPOILER] a SSC estava trabalhando tanto para os EUA como para grupos terroristas para que as forças militares oficiais se mostrassem insuficientes contra as ações terroristas e fossem inteiramente substituídas pelos seus militares contratados da própria SSC, o que a tornaria uma das maiores PMCs do mundo.


Em Deus Ex: Human Revolution, a trama principal envolve Adam Jensen, chefe de segurança da Sarif Industries, numa conspiração mundial sobre a tecnologia das melhorias biomecânicas no ano de 2027. E, durante a ação (com alguns elementos de RPG), encontramos a Belltower, uma corporação privada que presta serviços de segurança, contraterrorismo, resgate, operações militares e armamento para as Nações Unidas em várias partes do mundo. Seus agentes são os principais inimigos de Jensen e fazem de tudo para encontrar seu alvo, até mesmo eliminar cidadãos não cooperativos, invadir propriedade alheia e desrespeitar outros tantos direitos civis.

Na história fictícia de Deus Ex, a Belltower surgiu após a desfragmentação da Blackwater em 1997. Na história real, a Blackwater foi fundada em 1997 em Virginia, nos EUA.

A Blackwater contra o Mundo


Voltando ao mundo físico tridimensional de Euclides…

A Blackwater USA foi realmente uma das grandes PMCs contratadas pelo governo dos EUA para atuar principalmente no Iraque como apoio militar e proteção às autoridades estadunideses no país invadido. Os contratos chegavam a bilhões de dólares.

Sediada na Virginia, EUA, a empresa possui um vasto campo de treinamento e agentes contratados de todos os lugares do mundo. Fundada por Erik Prince, a Blackwater presta serviços de treinamento para reforço policial, operações militares autorizadas, apoio militar, segurança de intalações e consultoria em segurança.

Contratada para atuar no Iraque, a Blackwater ficou conhecida mundialmente por inúmeras acusações de desrespeito aos direitos civis da população iraquiana, uso desnecessário da força e assassinato de cidadãos comuns, tudo para proteger L. Paul Bremer, chefe da Autoridade Provisória de Coalização enviado pelo então presidente George W. Bush.

Em 2005, guardas da Blackwater que protegiam um comboio que levava oficiais do Departamento de Estado dos EUA dispararam mais de setenta tiros num único carro, cujo motorista havia ignorado ordens de parar. Após investigações, descobriu-se que um dos guardas disparou no próprio carro por acidente e que várias declarações feitas pelos agentes eram falsas. Todavia, o chefe de seguranaça da embaixada estadunidese, John Frese, recusou a aplicar medidas disciplinares, pois tal ação “diminuiria o moral dos contratados da Blackwater.”

Em 2006, um agente da Blackwater, Andrew j. Moonen, matou um guarda iraquiano enquanto estava embriagado. Ele foi demitido logo após o incidente. O governo e a Blackwater tentaram manter sua identidade secreta por questão de segurança e atualmente ainda está sendo investigado.

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Franco-atiradores matam insurgentes atirando contra uma cidade iraquiana (sem legenda)

Ainda em 2006, guardas da rede de TV iraquiana próximo ao edifício do Ministério da Justiça de Bagdá foram mortos por um franco-atirador da Blackwater. Testemunhas disseram que não havia qualquer ameaça por parte dos guardas, porém o Departamento de Estado dos EUA declarou que as ações da Blackwater “estavam dentro das regras aprovadas sobre uso da força”.

Legalmente falando, os operativos da Blackwater estão praticamente impunes, pois não podem ser julgados em solo iraquiano e nos EUA o Estado se recusa a processá-los – provavelmente devido a regras nos contratos entre o governo estadunidense e a Blackwater. Erik Prince, o fundador, disse que todas as ações da Blackwater ocorreram sob ordens do governo estadunidese.

Por fim, a PMC está enfrentado processos judiciais por ser acusada de contrabandear armas para o Iraque.

Jeremy Scahill, autor do livro Blackwater: The Rise of the World’s Most Powerful Mercenary Army  (no Brasil foi lançado em 2008 pela Cia. das Letras como Blackwater: A ascensão do exército mercenário mais poderoso do mundo) denunciou detalhadamente diversos casos e crimes cometidos pela Blackwater numa obra pertubadora e reveladora.

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Jeremy Scahill revela detalhes sombrios da Blackwater (sem legenda)

Atualmente, após mudar o nome de Blackwater USA para Blackwater WorldWide, Xe Services LLC e, por fim, para Academi, a empresa enfrenta sérios danos à sua imagem e diversos processos. Todavia, a CIA (agência de inteligência estadunidense), um dos seus principais clientes, continua a manter vários contratos milionários. Erik Prince saiu da empresa para abrir uma novo empreendimento no ramo de segurança em Abu Dabhi, a Reflex Responses.

Praticamente impunes, assim continua a ascensão do império da segurança privada em todo o mundo. E há informações que existem agentes da Blackwater e da Halliburton (outra grande PMC dos EUA) no Brasil protegendo bases petrolíferas com aval da ANP  – Agência Nacional de Petróleo.

O Coronel português Nuno António Bravo Mira Vaz  da Revista Militar (site português), já dissertou muito bem sobre o perigo do uso das PMCs em seu artigo:

As empresas militares privadas constituem um perigo real por uma razão muito simples: é que elas são capazes de criar um tipo de poder militar armado não residente no Estado. Se o próprio Exército dos EUA já concluiu que, no futuro, poderá ter de contratar pessoal civil para manter em funcionamento os equipamentos militares mais modernos, inclusive na área de combate, e em especial no que concerne aos sistemas de informações, a possibilidade de contratação das private military companies fica indiscutivelmente em aberto. Enquanto o poder destas empresas não ameaçar o poder das grandes potências e enquanto elas tiverem o cuidado de não assumir um protagonismo excessivo na cena internacional, o risco de substituírem as Forças Armadas nalguns cenários de conflito é muito reduzido. Mas não fica com isso diminuída a necessidade de ponderar hoje estas questões, sob risco de elas virem um dia a concretizar‑se por absoluta falta de alternativas.

E, como gosto de pensar, jogos não precisam ser somente diversão. Também deve levar a reflexão do mundo em que vivemos. Games também são cultura.

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